iDPP-4 e agonista de GLP-1: entenda as diferenças no tratamento do DM2
Entenda mecanismo de ação, impacto no peso e critérios de individualização terapêutica para orientar a escolha entre as duas classes no diabetes mellitus.
Por Mantecorp Saúde
25/09/2026 - Última atualização: 25/09/2026
Importante: este material destina-se exclusivamente a fins educacionais e informativos. As informações aqui apresentadas não substituem o julgamento clínico do profissional de saúde nem devem ser usadas como base única para decisões diagnósticas ou terapêuticas.
Os inibidores da DPP-4 (iDPP-4) e os agonistas do receptor de GLP-1 (AR GLP-1) são classes de medicamentos com mecanismos de ação distintos. Ambos podem fazer parte do tratamento do diabetes tipo 2 (DM2)1, quando houver indicação médica.
Os AR GLP-1 atuam no controle da glicemia e acabam contribuindo para a perda de peso ao atuarem na redução do apetite, no aumento da saciedade e no retardo do esvaziamento gástrico2.
Já os medicamentos da classe IDPP-4 também exercem seu papel na glicemia, mas apresentam, em geral, perfil de neutralidade ponderal (não provocam ganho nem perda significativa de peso corporal)1.
Ambas as classes apresentam resultados importantes, e a escolha terapêutica deve ser feita pelo médico. Diabetes mellitus é uma doença crônica que exige acompanhamento e tratamento individualizado. E o DM2 é o tipo mais comum3, o que torna ainda mais importante conhecer as opções de substâncias para pensar no melhor caminho para seus pacientes.
Por que falar de iDPP-4 em tempos de GLP-1?
A popularização das canetas, como aquelas que usam semaglutida ou tirzepatida como princípio ativo, tornou o termo GLP-1 mais conhecido. Toda a fama tem base científica, afinal, essas substâncias são importantes ferramentas para tratar o diabetes tipo 2 e a obesidade1,2.
Isso é ainda mais significativo no cenário atual, no qual é importante destacar que o tratamento do DM2 deixou de ser pautado apenas pelo controle glicêmico, ampliando-se para um cuidado que soma proteção cardiorrenal, manejo da obesidade e intensificação da terapia no momento adequado, com o objetivo de reduzir complicações a longo prazo1.
Com isso, os agonistas do receptor de GLP-1 ganharam ainda mais destaque, pois contribuem para a perda de peso e ainda oferecem, por exemplo, proteção cardiovascular e promovem a saúde metabólica de forma geral2.
Mas isso não quer dizer que esse medicamento seja a melhor escolha para todos os pacientes que convivem com o DM2. Os inibidores de DPP-4, como a alogliptina, são indicados para pacientes que necessitam de terapias neutras para o peso e com baixíssimo risco de hipoglicemia1.
No final, um medicamento não substitui o outro, mas é importante reforçar que os AR GLP-1 e os iDPP-4 não devem ser usados concomitantemente1. Cabe ao médico analisar o paciente e as diferentes possibilidades de tratamento.
O que são os iDPP-4 e como eles agem no tratamento do diabetes tipo 2
Os iDPP-4 agem no controle da glicemia ao inibirem a ação da enzima dipeptidil peptidase-4 (DPP-4)4.
Este é o mecanismo detalhado: a fisiologia das incretinas fundamenta-se na liberação intestinal dos hormônios GLP-1 e GIP após a ingestão alimentar. Eles estimulam a secreção pancreática de insulina dependente de glicose, enquanto o GLP-1 atua também suprimindo o glucagon e, consequentemente, reduzindo a produção hepática de glicose. No entanto, ambos são rapidamente degradados pela enzima dipeptidil peptidase-44.
Embora pacientes com diabetes tipo 2 apresentem níveis reduzidos de GLP-1, a resposta insulínica a esse peptídeo permanece preservada. O medicamento da classe iDPP-4 atua inibindo de forma altamente seletiva a DPP-4 (sem interferência em DPP-8 ou DPP-9), prolongando a meia-vida das incretinas endógenas4.
Esse aumento fisiológico promove o controle das glicemias de jejum e pós-prandial de maneira glicose-dependente, minando o risco de hipoglicemia4.
Alogliptina: princípio ativo da classe dos iDPP-4
A alogliptina é um dos representantes da classe dos iDPP-4 disponíveis no Brasil, ao lado de moléculas como sitagliptina, vildagliptina, linagliptina, saxagliptina e evogliptina1. O medicamento de referência para a alogliptina no Brasil é a Nesina®4,5.
Assim como as demais moléculas do grupo, seu papel terapêutico está associado ao controle glicêmico, com baixo risco de hipoglicemia em monoterapia1.
Além disso, estudos clínicos demonstraram que a alogliptina não aumenta o risco de Eventos Cardiovasculares Adversos Maiores (MACE), tais como morte cardiovascular, infarto do miocárdio não fatal e acidente vascular cerebral (AVC) não fatal, em comparação ao placebo4.
No entanto, ainda não existem dados clínicos que comprovem a redução de risco ou benefício cardiovascular com o uso dessa substância4.
Eficácia da alogliptina e dos iDPP-4
Em termos de eficácia, a diretriz da Sociedade Brasileira do Diabetes (SBD) situa os iDPP-4 como uma classe de eficácia intermediária para redução de glicemia de jejum e de HbA1c, com bom perfil de segurança e tolerabilidade, hipoglicemia rara em monoterapia e sem alteração relevante de peso1.
iDPP-4 e análogos de GLP-1: qual é a diferença?
Ainda que atuem sobre vias relacionadas às incretinas, as duas classes têm perfis bem diferentes1. A tabela abaixo resume as principais diferenças descritas na diretriz da SBD e em estudos:
| Característica | iDPP-4 | Análogos de GLP-1 |
|---|---|---|
| Mecanismo | Inibe a enzima DPP-4 e, com isso, preserva o GLP-1 endógeno ao impedir sua degradação1. | Age diretamente no receptor de GLP-1. Atua mimetizando a ação do hormônio no organismo2. |
| Via de administração | Oral1 | Majoritariamente injetável (há opção oral)1 |
| Efeito no peso | Neutro1 | Contribui para a perda de peso ao reduzir o apetite, aumentar a saciedade e retardar o esvaziamento gástrico2 |
| Risco de hipoglicemia | Baixo em monoterapia; aumenta em associação com sulfonilureias ou insulina1 | Baixo em monoterapia; aumenta em associação com secretagogos1 |
| Eficácia na glicemia | Redução de glicemia de jejum em 20 mg/dL e da HbA1c em 0,6-0,8%1 | Redução estimada de glicemia de jejum em 30 mg/dL e da HbA1c em 0,8-1,5%1. Redução da variabilidade da glicose pós-prandial1 (considerando a semaglutida como exemplo de AR GLP1) |
| Efeitos colaterais | Angioedema e urticária1 Probabilidade de pancreatite aguda1 |
Náusea, vômitos e diarreia1 Aumento discreto da frequência cardíaca1 Pancreatite aguda (rara, observada apenas nos AR GLP-1 injetáveis)1 |
| Papel no tratamento do DM2 | Controle glicêmico com perfil de tolerabilidade favorável1 | Controle glicêmico associado a redução de peso e, em parte das moléculas, benefício cardiovascular1,2 |
*Tabela elaborada a partir dos dados de eficácia, efeito ponderal e segurança reunidos na diretriz da SBD e o estudo Mechanisms of GLP-1 Receptor Agonist-Induced Weight Loss: A Review of Central and Peripheral Pathways in Appetite and Energy Regulation1,2.
Vale reforçar: nenhuma das duas classes é superior em termos absolutos, a escolha depende do perfil clínico do paciente, conforme o princípio de individualização terapêutica da diretriz1.
Todo medicamento para diabetes emagrece?
Nem todo medicamento para diabetes emagrece. Diante do avanço das canetas que usam como princípio ativo os agonistas do receptor GLP-1, o paciente pode chegar ao consultório pensando que qualquer antidiabético também reduz peso de forma relevante.
É essencial explicar que existem classes diferentes, com mecanismos e objetivos terapêuticos distintos, e que, por isso, o tratamento deve ser sempre individualizado1.
Os iDPP-4, por exemplo, têm perfil de neutralidade ponderal: a diretriz da SBD descreve a classe como raramente associada à hipoglicemia e sem impacto relevante sobre o peso1.
Já os análogos de GLP-1, como a semaglutida, e os coagonistas de GIP/GLP-1, como a tirzepatida, retardam o esvaziamento gástrico, diminuem o apetite e aumentam a saciedade, o que se traduz em perda de peso mais expressiva1,2.
Isso não torna um grupo "melhor" que o outro, já que o que define a escolha terapêutica é o conjunto de características do paciente, controle glicêmico, peso, risco cardiovascular, função renal e comorbidades, e não apenas a expectativa de emagrecimento1.
É de suma importância ainda relembrar os riscos da automedicação, ainda mais quando medicamentos estão sendo tão comentados, como as canetas emagrecedoras.
Por que cada tratamento para DM2 tem uma indicação
A individualização é um princípio central do tratamento do diabetes1. A escolha dos agentes antidiabéticos deve considerar a estratificação de risco cardiovascular, o índice de massa corporal e a taxa de filtração glomerular do paciente, além de eficácia, risco de hipoglicemia, tolerabilidade, custo, efeitos adversos potenciais e a preferência do próprio paciente1.
Esses critérios se traduzem, na prática, em perguntas como:
- Qual é o risco cardiovascular do paciente?1
- Há sobrepeso, obesidade ou necessidade de perda de peso associada?1
- Como está a função renal?1
- Existem comorbidades que pesam a favor ou contra determinada classe?1
- Qual é o custo e o acesso do paciente ao tratamento?1
- Qual é a preferência do paciente quanto à via de administração e à rotina de uso?1
Essas questões ajudam a entender tanto o quadro do paciente quanto as suas preferências. As canetas de semaglutida e tirzepatida são de aplicação subcutânea, e muitos pacientes podem ter receio de agulha e se sentir mais confortáveis com um medicamento via oral.
Além disso, as canetas costumam ter um custo mais elevado que o de outros medicamentos para diabetes.
No final, a junção das respostas, além da análise de exames e histórico do paciente, ajuda a guiar a escolha da classe do medicamento mais adequada para aquele momento.
Perguntas frequentes sobre iDPP-4 e tratamento do DM2
Abaixo, resumimos as principais dúvidas quando falamos dessas duas classes de medicamentos para o tratamento do diabetes tipo 2.
O que são iDPP-4?
São inibidores da enzima DPP-4, que atuam sobre o sistema das incretinas aumentando os níveis de GLP-1 endógeno e favorecendo a secreção de insulina, com redução da secreção de glucagon1,4.
Qual é a diferença entre iDPP-4 e GLP-1?
Uma das diferenças está no peso. Enquanto os iDPP-4 são peso neutro, os AR GLP-1 contribuem para a perda de peso1.
Há ainda diferenças no mecanismo de ação, na eficácia e nos efeitos colaterais1.
iDPP-4 emagrece?
Em geral, não. A diretriz da SBD descreve os iDPP-4 como uma classe que raramente causa hipoglicemia e não altera o peso de forma relevante, ou seja, com perfil de neutralidade ponderal1.
Alogliptina é usada para diabetes tipo 2?
Sim. A alogliptina é um dos princípios ativos da classe dos iDPP-4 utilizados no tratamento do DM2 no Brasil4, ao lado de sitagliptina, vildagliptina, linagliptina, saxagliptina e evogliptina1.
Todo medicamento para diabetes ajuda a perder peso?
Não. O efeito sobre o peso varia conforme a classe: iSGLT2 e análogos de GLP-1 tendem a reduzir peso, os iDPP-4 costumam ser neutros, e sulfonilureias, glitazonas e insulina podem estar associadas a ganho de peso, segundo diretriz da SBD1.
Como o médico escolhe o tratamento para diabetes tipo 2?
A escolha considera risco cardiovascular, peso, função renal, comorbidades, custo/acesso e preferência do paciente, sempre de forma individualizada, conforme recomenda diretriz da SBD1.
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4. Nesina®: alogliptina. Bula para o profissional da saúde. COSMED INDÚSTRIA DE COSMÉTICOS E MEDICAMENTOS S.A.
6. Nesina® Met: alogliptina + cloridrato de metformina. Bula para o profissional da saúde. COSMED INDÚSTRIA DE COSMÉTICOS E MEDICAMENTOS S.A.
7. Nesina® Pio: alogliptina + cloridrato de pioglitazona. Bula para o profissional da saúde. COSMED INDÚSTRIA DE COSMÉTICOS E MEDICAMENTOS S.A.
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