Ginecologia

Anticoncepcional para endometriose: indicações e atualizações

O tratamento com anticoncepcional ajuda a controlar a dor e a devolver a qualidade de vida à paciente. Entenda quais substâncias são as mais indicadas nesse caso

Por Mantecorp Saúde

14/09/2026 - Última atualização: 14/09/2026

Imagem da notícia Anticoncepcional para endometriose: indicações e atualizações

Importante: este material destina-se exclusivamente a fins educacionais e informativos. As informações aqui apresentadas não substituem o julgamento clínico do profissional de saúde nem devem ser usadas como base única para decisões diagnósticas ou terapêuticas.

A endometriose é uma doença crônica, multifatorial, que afeta 1 em cada 10 mulheres em idade reprodutiva, e costuma estar associada a dores intensas e infertilidade1,2. Entre as opções de tratamento, há o que é popularmente chamado de "anticoncepcional para endometriose"3.

Essa classe de medicamento, sempre com indicação médica, pode fazer parte dos tratamentos medicamentosos hormonais para a endometriose ao atuar no ciclo menstrual, ajudando a aliviar sintomas relacionados e reduzir sangramentos3.

Entenda como esses chamados "anticoncepcionais para endometriose" atuam no organismo, como acompanhar a doença e auxiliar as pacientes e outros pontos de atenção essenciais relacionados à endometriose.

Qual a relação dos hormônios com a endometriose?

A endometriose é uma doença ginecológica benigna em que um tecido semelhante ao endométrio, que reveste a parte interna do útero, cresce fora do lugar esperado e se infiltra em diferentes órgãos e tecidos, principalmente na região da pelve. E ela tem relação direta com os hormônios que regulam o ciclo menstrual1,2.

Ao longo do mês, o corpo passa por variações hormonais que influenciam a ovulação, o crescimento do endométrio dentro do útero e o sangramento menstrual4,5.

Na endometriose, como existe tecido semelhante ao endométrio também fora do útero, esses focos também podem sofrer influência dos estímulos hormonais. Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas percebem piora das cólicas, da dor pélvica ou de outros sintomas em determinadas fases do ciclo1,2,4.

Compreenda a ação dos hormônios no quadro.

Estradiol

O estradiol, por exemplo, é um dos principais estrogênios produzidos pelos ovários durante a idade reprodutiva. No ciclo menstrual, ele participa do crescimento do endométrio dentro do útero4,5.

Quando há endometriose, esse estímulo hormonal também pode influenciar os focos de tecido semelhante ao endométrio que estão fora da cavidade uterina. Por isso, os estrogênios costumam ser associados à atividade da doença e à variação dos sintomas ao longo do ciclo4,6.

Angiogênese e a relação com o estrogênio

Quando o tecido semelhante ao endométrio cresce fora do útero, ele precisa de irrigação para continuar ativo. Isso significa que esses focos precisam receber sangue, oxigênio e nutrientes, mesmo estando em um lugar onde não deveriam estar6.

É aí que entra a angiogênese, nome dado à formação de novos vasos sanguíneos. Esse processo acontece naturalmente no corpo e tem funções importantes, inclusive no ciclo menstrual e na reprodução6.

Na endometriose, porém, a angiogênese acaba ajudando a manter as lesões, porque favorece a chegada de sangue até esses focos de tecido6. E esse mecanismo é ativado pelo estrogênio, que estimula a liberação de fatores de crescimento vascular6.

Progesterona

Já a progesterona, hormônio que ganha mais importância após a ovulação, ajuda a preparar e estabilizar o endométrio5,6.

Entretanto, na endometriose há a chamada resistência à progesterona. Essa insensibilidade hormonal compromete a resposta celular adequada, favorecendo a persistência de um microambiente inflamatório e dependente de estrogênio2.

A tabela abaixo correlaciona a dinâmica fisiológica desses hormônios no ciclo saudável com o desvio funcional que sustenta as lesões de endometriose:

Hormônio Alvo Fisiológico (Ciclo Regular) Impacto Fisiopatológico (Endometriose) Consequência Clínica / Mecanismo
Estradiol (Estrogênio) Proliferação e crescimento do endométrio intrauterino4,5 Estimulação mitogênica de focos extrauterinos e indução de neovascularização4,6 Angiogênese ativa: sobrevivência e irrigação das lesões por fatores de crescimento vascular2,6
Progesterona Decidualização, estabilização endometrial e controle inflamatório pós-ovulação5,6 Bloqueio de sinalização celular devido à resistência à progesterona2 Persistência inflamatória: perda do efeito protetor do hormônio, mantendo o tecido dependente de estrogênio2

 

Endometrioma na progressão da endometriose

A atuação dos hormônios junto com outros processos biológicos complexos pode levar ao avanço da endometriose2.

À medida que esse processo avança, podem surgir complicações severas como o endometrioma, que é um foco de endometriose que se desenvolve no ovário2.

Isso acontece porque as células ali implantadas respondem aos mesmos estímulos hormonais do ciclo menstrual, descamando e sangrando diretamente no ovário. Sem vias de escoamento, o sangue antigo acumula-se, gerando uma inflamação crônica que retroalimenta a produção local de estrogênio2,7.

Aproximadamente 44% das mulheres diagnosticadas com endometriose vão apresentar o endometrioma, o qual indica um estágio mais grave2.

Mulher sentada no sofá segura o abdômen com expressão de dor intensa, ilustrando o desconforto associado ao endometrioma.

 

Como a supressão menstrual pode ajudar nos sintomas da endometriose

A supressão menstrual é uma estratégia usada para reduzir os sangramentos menstruais ou, em alguns casos, fazer com que a menstruação fique temporariamente ausente5. Isso pode ser feito com a prescrição de alguns anticoncepcionais para endometriose3.

Na endometriose, ao reduzir os episódios de sangramento e a atividade cíclica do endométrio, essa estratégia pode contribuir para o alívio de cólicas intensas, dor pélvica e pioras associadas ao período menstrual3,5.

Ainda assim, a supressão menstrual não deve ser entendida como cura ou como garantia de regressão das lesões3,5.

O que acontece com o ciclo menstrual nesse cenário

O ciclo menstrual é regulado por uma comunicação entre o cérebro e os ovários, chamada de eixo hipotálamo-hipófise-ovário. De forma simples, esse eixo funciona como uma troca de sinais hormonais que ajuda a controlar a ovulação e as mudanças do endométrio ao longo do mês5.

Alguns métodos hormonais interferem nessa sequência de estímulos. Com isso, podem reduzir a liberação de hormônios envolvidos na ovulação, diminuir o crescimento do endométrio e tornar os sangramentos menos frequentes ou menos intensos5.

Anticoncepcional para endometriose: qual é o papel no tratamento?

O anticoncepcional pode fazer parte do tratamento da endometriose justamente quando o objetivo é reduzir sintomas relacionados ao ciclo menstrual, como mencionado anteriormente3,7.

A escolha do método e do formato, como pílula, DIU, injeção ou implante, depende dos sintomas, do padrão de sangramento, das contraindicações e da tolerância de cada paciente aos efeitos adversos3,7.

Pílula com drospirenona

A pílula com drospirenona é uma opção hormonal só com progestagênio, ou seja, sem estrogênio. Isso pode ser relevante para pacientes que precisam evitar métodos combinados ou que apresentam maior sensibilidade aos efeitos relacionados ao estrogênio8.

Além disso, a drospirenona tem características próprias em relação a outros progestagênios. Por ter ação antiandrogênica e antimineralocorticoide, pode ser considerada pelo médico quando há preocupação com efeitos como acne, retenção de líquidos ou pior tolerância a algumas formulações hormonais8.

Lembrando que a escolha do melhor método anticoncepcional para casos de endometriose é responsabilidade do profissional de saúde.

Anticoncepcional interrompe a menstruação?

No manejo do paciente, o médico pode optar pelo uso contínuo de anticoncepcionais. Nesse caso, é possível evitar o sangramento de pausa3,5,7.

Ainda assim, é importante alinhar expectativas: algumas pessoas ficam sem menstruar, enquanto outras podem ter escapes ou sangramentos irregulares, principalmente no começo5,7.

Limites do anticoncepcional sobre lesões e progressão da doença

Como vimos até aqui, o tratamento hormonal pode ser um aliado importante no cuidado clínico da endometriose, principalmente quando o objetivo é controlar sintomas, reduzir sangramentos e melhorar a qualidade de vida2,5,7.

Ainda assim, o anticoncepcional não deve ser entendido como cura. Ele pode ajudar a aliviar a dor e, em algumas pacientes, contribuir para a estabilização da doença, mas não há garantia de que as lesões vão regredir, desaparecer ou deixar de evoluir apenas com o uso do método hormonal2,5,7.

Por isso, mesmo quando os sintomas melhoram, o acompanhamento com ginecologista continua necessário2,5,7.

Profissional de saúde examina o abdômen de uma paciente deitada em maca hospitalar, em avaliação relacionada à saúde hormonal e reprodutiva.

 

Perguntas frequentes sobre anticoncepcional para endometriose

Antes de detalharmos mais a fundo o manejo da endometriose, respondemos algumas perguntas frequentes, que podem ser dúvidas de suas pacientes.

Anticoncepcional ajuda no tratamento da endometriose?

Sim. O anticoncepcional pode ajudar a reduzir sangramentos e aliviar sintomas ligados ao ciclo menstrual, como cólicas intensas e dor pélvica2,3,5,7.

Anticoncepcional cura endometriose?

Não. O anticoncepcional pode ajudar no controle dos sintomas, mas não cura a endometriose nem garante que as lesões vão desaparecer2,5,7.

Anticoncepcional corta a menstruação em quem tem endometriose?

Alguns anticoncepcionais podem reduzir bastante o sangramento ou deixar a menstruação temporariamente ausente, especialmente quando usados de forma contínua. Ainda assim, algumas pacientes podem ter escapes ou sangramentos irregulares5,7.

A dor melhorar significa que a endometriose acabou?

Não necessariamente. A melhora da dor é um bom sinal, mas a doença pode continuar presente e é essencial o acompanhamento atento do ginecologista2,5,7.

O que é endometrioma?

Endometrioma é um cisto formado quando a endometriose atinge o ovário. Ele costuma conter sangue antigo e é conhecido como “cisto achocolatado”2.

Qual é a relação entre estradiol e endometriose?

O estradiol é um estrogênio que participa do ciclo menstrual e do crescimento do endométrio. Na endometriose, ele também pode estimular focos de tecido semelhante ao endométrio fora do útero4,5,6.

Pílula com drospirenona pode ser usada em endometriose?

A pílula com drospirenona pode ser considerada em alguns casos, por ser uma opção só com progestagênio e sem estrogênio. A indicação deve ser feita pelo ginecologista, considerando sintomas, contraindicações e o perfil de cada paciente8.

O que é o eixo hipotálamo-hipófise-ovário?

É a comunicação entre o cérebro e os ovários que regula o ciclo menstrual, funcionando como uma troca de sinais hormonais que controla a ovulação e as mudanças do endométrio ao longo do mês5.

Alguns métodos hormonais agem sobre esse eixo: reduzem a liberação dos hormônios envolvidos na ovulação, diminuem o crescimento do endométrio e tornam os sangramentos menos frequentes ou menos intensos5.

O que é angiogênese na endometriose?

Angiogênese é a formação de novos vasos sanguíneos, um processo natural do corpo que também participa do ciclo menstrual e da reprodução6.

Na endometriose, porém, ela ajuda a manter as lesões, ao favorecer a chegada de sangue, oxigênio e nutrientes aos focos de tecido fora do útero. Esse mecanismo é ativado pelo estrogênio, que estimula a liberação de fatores de crescimento vascular6.

Para saber mais sobre o manejo clínico e os tratamentos para a endometriose, faça seu login e continue lendo o conteúdo.

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1 - Hunsche E, Gauthier M, Witherspoon B, et al. (2023). Endometriosis Symptoms and Their Impacts on the Daily Lives of US Women: Results from an Interview Study. International Journal of Women's Health, 15, 893–904. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10241351/. Acesso em: 24 jun. 2026.

2 - Dutra CN, Rocha ALO, Nascimento BSV, et al. (2023). Endometrioma: aspectos etiopatogênicos, métodos diagnósticos e manejo terapêutico. Brazilian Journal of Development, Curitiba, 9(4), 13886–13897. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BRJD/article/view/59023/42836. Acesso em: 24 jun. 2026

3 - EUROPEAN SOCIETY OF HUMAN REPRODUCTION AND EMBRYOLOGY (ESHRE). Endometriosis guideline. Grimbergen: ESHRE, 2022. Disponível em: https://www.eshre.eu/Guidelines-and-Legal/Guidelines/Endometriosis-guideline. Acesso em: 13 jul. 2026.

4 - Hariri L, Rehman A. Estradiol. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK549797/. Acesso em: 25 jun. 2026.

5 - Buck E, McNally L, Vadakekut ES, Jenkins SM. (2026). Menstrual Suppression. StatPearls [Internet], Treasure Island (FL), StatPearls Publishing, 1–19. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK592411/. Acesso em: 25 jun. 2026.

6 - Rocha ALL, Reis FM, Taylor RN. (2013). Angiogenesis and Endometriosis. Obstetrics and Gynecology International, 2013, Artigo ID 859619, 8 páginas. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3677669/. Acesso em: 24 jun. 2026.

7 - Weisberg E, Fraser IS. (2015). Contraception and endometriosis: challenges, efficacy, and therapeutic importance. Open Access Journal of Contraception, Dove Medical Press, 6, 105–115. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5683134/. Acesso em: 24 jun. 2026.

8 - Regidor PA, Mueller A, Mayr M. (2023). Pharmacological and metabolic effects of drospirenone as a progestin-only pill compared to combined formulations with estrogen. Women's Health, Sage Journals, 19, 1–10. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9905034/. Acesso em: 25 jun. 2026.

9 – Ammy: drospirenona. 4 mg [Bula para o profissional de saúde] Medicamento sob prescrição. Mantecorp Farmasa

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